quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A Mentora


*Foto retirada do: massalo.tumblr.com

Como em nenhuma outra vez fizera, abracei forte a saudade e dei-lhe dois beijos; um em cada bochecha. Entrou em minha casa; convidei-a para sentar, ofereci-lhe uma chávena de chá e uma fatia de bolo de cenoura, que eu mesma fiz.

Desta vez, fiquei feliz em vê-la. Queria saber como ela estava, se se alimentava e se tinha encontrado outra companhia. Como uma metralhadora, disparei todas as perguntas que a minha cabeça conseguia processar no momento.

Tinha programado aquele encontro inúmeras vezes e a minha memória cuidou de gravar cada um deles, pois, não queria ser apanhada desprevenida por aquela que fora uma das minhas melhores mentoras da mocidade. Não podia deixar os meus créditos em mãos alheias.

Avancei segura de mim e, como se estivesse a cantar a tabuada dos dois, descarreguei todos os seus ensinamentos, queria que se sentisse orgulhosa de mim e tudo aquilo que me tornei como ela assim o quis.

O meu entusiasmo era tanto, que nem me deixou reparar que a minha querida saudade, aquela que antes desfilava de vermelho marcante, hoje veste um cinza e quase passa despercebida entre a minha felicidade inesgotável e amor infindável.

Parei, dei-lhe espaço para respirar e ela começou a dizer:
"-Meu amor, regozijo-me em ver com os meus próprios olhos, que o meu lugar em teu coração foi ocupado por esta luz intensa que irradias, que o teu sorriso não te deixa fraquejar e que a tua fé faz-te grandiosa. Eu, já não pertenço aqui. Aliás, nem sei porquê que alguma vez me deixaste entrar.
Desde que estou nessa estrada, nunca recebi tanto carinho; ninguém, como tu, alimentou-me com tamanha esperança ao ponto de me deixar ousada e totalmente invasiva. Apoderei-me de ti, magooei-te, apunhalei-te vezes e vezes sem conta; deixei-te no chão. A tua força, a tua beleza e o teu corpo me pertenciam. Pensei que fosse viver aqui para sempre! Instalei-me em cada canto, mudei a decoração, arranquei-te o poder de discernimento e em pouco tempo eras minha escrava, submissa das minhas vontades e fantoche dos meus desejos; controlava-te os movimentos.
Agora, neste nosso último contacto, mostro-te a verdadeira cara da saudade, transpareço o quão impiedosa e destruidora posso ser, entretanto, não esperes um pedido de desculpa vindo de mim, pois, tudo o que fiz foi com teu consentimento.
Bem, eu já me vou embora, não quero ocupar mais o teu tempo. Ah, e antes que me esqueça, esta tristeza aí guardada naquele canto, vem comigo. Cuida-te, quem em qualquer deslize teu, eu volto... Melhor do que antes!"

Por: Rosema Matias

1 comentário:

  1. "E essa tristeza guardada naqle canto, vem comigo " O texto inteiro 'e bom, e o final mlhor

    Falar de sentimentos como se eles fossem personagens, isso 'e lindo.

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