quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

A Sigla Da Minha Dor


Fugi dali no primeiro carro que me apareceu à vista, precisava desaparecer, escapar de mim mesma.

O Douglas acabava voltar do hospital, e, me chamou para o ver com urgência pois o que tinha a dizer era importante e não podia esperar.
Corri para lá pois tinha saudades do maldito, ele andava distante e seu toque se tornava cada dia menos íntimo. A desculpa do trabalho acumulado, dos relatórios por entregar se fazia mais presente. Estava preocupada, curiosa até. Mas queria mesmo despir-lhe sem pudor e matar a saudade.

Quando cheguei, ele próprio abriu a porta e logo disse que havia dispensado a empregada pois o que ia contar era segredo que nem mesmo as paredes podiam ouvir. Então levou-me ao quarto segurando a minha mão como nunca antes o tinha feito e sentados na cama ele tentava começar a falar.

O maldito era o homem da minha vida; já sabia das suas traições mas sempre o entendia.

 Depois de uma discussão pelo cheiro de vadia na sua camisa, marca de batom ou calcinhas no cesto de roupa, ele rejeitava minhas chamadas, não me respondia às mensagens mas depois voltava. Tinha coragem de me chamar melodramática.
Tinha sempre uma mentira melhor, era do tipo que se preocupa o bastante para não dizer a verdade; fazia questão de caprichar nas desculpas e, se desse sorte até ganhava flores.

Começou por dizer que me amava e tinha noção do quão era recíproco, e então pediu desculpas por todo mal que um dia me tinha feito e eu só consegui sorrir pois o perdoava antes mesmo de saber de seus erros.
Não estava a entender tudo aquilo, não havia motivo aparente.
Ele disse que sentia muito pelo que ia contar e eu ficava cada vez mais confusa; disse que esperava que meu amor fosse suficiente para lhe perdoar mas mesmo assim entendia se eu quisesse me afastar. Minha cabeça andava ás voltas sem entender o que podia se ter acontecido ou estivesse para acontecer. Estávamos bem, do nosso jeito.
Perguntou se lembrava da Kátia, sua amiga de infância. Pelo menos era essa a desculpa que ele dava para a encontrar tantas vezes em sua casa. As minhas amigas diziam que havia algo mais ali e eu fazia pouco caso, mas Douglas acabava de confirmar.

Eles tinham um caso.

O filho da mãe não poupou os detalhes de como se conheciam bem antes de eu surgir em sua vida; disse que tinham os seus 4 anos de relacionamento mas cada um com a sua vida, suas aventuras e casos banais. Também disse que se davam bem na cama e confiavam extremamente um no outro, eu chorava e pedia para que ele parasse; ele insistia que tudo aquilo era necessário.

Ele acabava de fazer o teste e dera positivo, ele tinha HIV.

Perdi meu chão. Muitas vezes brincamos ao imaginar uma situação parecida, prometi que ficaria do seu lado e veríamos nossa imunidade baixar deitados de concha. Mas, ali, na verdade do momento, nenhuma daquelas promessas valia.

Não pensei em nada e sai a correr daquele quarto sujo de mentiras, não aguentava o cheiro da sua falsidade, o odor do sexo que ele tinha com a outra. Não quis ouvir sequer mais uma palavra sua, palavras imundas.
Não lhe desculpei em momento algum; fiz o teste também, ele sempre dizia que devia confiar e que o preservativo era sinal de que não o amava, o meu teste também deu positivo.
Os médicos adoram dizer que não é o fim da minha vida e que ainda posso viver muito mais, mas perdi o meu motivo para ser alguém melhor. A proximidade com a morte me prende os passos.

O pior do HIV/SIDA é que ele não te mata, ele pede ajuda da depressão para te destruir.

Por: Leocádia Valoi

4 comentários:

  1. Meu texto favorito até agora.. Cada palavra deixa com mais sede de ler..

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  2. Meu texto favorito até agora.. Cada palavra deixa com mais sede de ler..

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    1. Volte sempre dear, e encontre novos textos favoritos 😊

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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